Projeto Curta São Luiz recebe a tradição das “Rabecas”

 

O Cineteatro São Luiz abre suas portas nas sextas feiras do mês de junho (dias 8, 15, 22 e 29), sempre às 12h30, para os sons da tradição. Estarão de volta as rabecas. Com a curadoria de Gilmar de Carvalho e Francisco Sousa, sete rabequeiros e uma rabequeira, sendo alguns também luthiers, estarão trazendo o que sertão, serras e litoral têm de melhor para acompanhar reisados, danças de São Gonçalo, dramas, leilões e teatro de bonecos (Casimiro Coco). As rabecas estarão no meio da cena e farão a festa no equipamento da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult).

Parente muito próximo do violino, as rabecas têm as mesmas quatro cordas e as mesmas notas musicais. A principal diferença entre os instrumentos está no rigor milimétrico com que são feitos e tocados os violinos e na extrema liberdade das rabecas. Estas podem ser feitas de latas, de panelas, de PVC, e de vários tipos de madeiras, com vários jeitos de ‘fabricação’ e com o mesmo desejo de animar o mundo.

As rabecas tocam nos reisados, acompanham as apresentações do teatro de bonecos, fazem a trilha sonora dos dramas, marcam a cadência dos leilões e animam as danças de São Gonçalo, que são o pagamento de uma promessa feita ao santo português, por uma graça alcançada. Tocadas com alegria ou de um modo dolente, as rabecas animaram, ao longo do tempo, muitas festas pelos nossos sertões, serras e praias.

 

CURTA SÃO LUIZ

O Projeto Curta São Luiz tem como objetivo dialogar com os transeuntes do Centro de Fortaleza. O projeto ocorre geralmente às sextas-feiras, às 12h30, e perpassa diversas linguagens e gêneros, sendo um espaço para apresentações de novos artistas e culturas tradicionais.

 

PROGRAMAÇÃO

Dia 08/06

DI FREITAS

Nasceu em Fortaleza e foi para o Cariri, onde se integrou ao ambiente dos mestres e da cultura romeira. Tem formação musical, mas toca rabeca como o sertanejo que é de fato. Desenvolve um trabalho social com crianças e adolescentes no Horto, em Juazeiro do Norte. Faz rabecas de cabaças e de caixas de papelão, evidenciando a sustentabilidade da arte.

PELÉ

Pelé faz parte do núcleo da tradição da Cachoeira do Fogo, em Independência, sertão dos Inhamuns. O assentamento do MST tem um reisado dos mais impactantes do Ceará, sempre acompanhado pelas rabecas. Pelé teve grandes mestres como Zé e Antonio Barroso. Com jovens como Pelé, está mantida a força da tradição.

Dia 15/06

JOÃO GEMINIANO

Ele mora num lugar lindo, no Inhuçu, São Benedito, envolto por neblinas, quando das chuvas, e onde se cultivam as rosas cearenses que tomam conta da Europa. Geminiano é tocador experiente, daqueles que começou nas brincadeiras para fazer o povo dançar e acompanhou os folguedos tradicionais. Tem algumas composições e uma paixão pela rabeca.

TOTONHO

O jovem senhor que vive no Mauriti, onde nasceu, é um dos maiores luthiers do Brasil. Faz rabecas, mas faz violinos “tipo exportação”, que tocam nas principais sinfônicas do Brasil e do mundo. Aprendeu estas artes em São Paulo, onde viveu quando jovem. Na volta, se instalou no sítio São Félix, onde transmite seus saberes para jovens da região.

Dia 22/06

GIL D’AURORA

Gil era um criativo escultor em madeira, de Aurora, que resolveu se voltar para a luteria. Teve aulas com Totonho, a quem foi buscar no Mauriti. A partir daí, nascia o luthier. Faz rabecas que ilustra com pirografia (fogo) e sempre mostra do que é capaz de fazer. Rabecas prontas, começa a afiná-las, assim aprendeu a tocar, e o faz bem.

RAIMUNDO ALBINO

Filho do rabequeiro João Albino, de Paracuru, vive na localidade de Volta Redonda. Tocou muito para animar os folguedos da região. Aprendeu também as artes da luteria. Tornou-se uma referência para seus conterrâneos e faz sua estreia em palcos fortalezenses. Está de bem com a vida, quando toca. Os bons ventos fazem ecoar sua rabeca, a partir do litoral oeste.

Dia 29/06

DONA ANA

A única mulher encontrada em uma pesquisa de mais de quinze anos de Gilmar de Carvalho e Francisco Sousa herdou a rabeca, na verdade um violino francês, com selo de uma luteria parisiense, do pai, pequeno proprietário rural, das bandas do Umari. Ana não fez comércio da arte, mas aprendeu a tocar leve, delicado, e sua rabeca soa como música de câmera.

CHICO BARBEIRO

Este inventor, depois de fazer suportes para navalhas e bancos, de PVC, tentou fazer uma rabeca e não deu outra. É sua marca registrada. O cristal amplifica seu som e ele toca de um modo que é difícil a gente ficar parado e não cair na dança. Mora no Umari e já tocou muito por este mundo afora, onde leva a alegria de um som amplificado para os nossos tempos.

CURADORIA:

Gilmar de Carvalho (1949) é jornalista. Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Professor da UFC, de 1984 a 2010. Biógrafo do Patativa, estudioso do cordel e da xilogravura, estuda as relações das tradições com as novas mídias. A pesquisa “Rabecas da Tradição”, que desenvolveu com Francisco Sousa, foi premiada pelo IPHAN, em 2014. Francisco Sousa (1973) é bacharel em Filosofia pelo ITEP e Especialista no Ensino de Filosofia pela Faculdade Católica de Fortaleza. Iniciou-se na fotografia em 2002. Expôs na Caixa Cultural da Praça da Sé (SP) e em centros culturais de Fortaleza. Publicou “Ceará escrito à luz”, em 2011. Coautor de vários livros com Gilmar de Carvalho.

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